Dizem que as mulheres são mais faladoras que os homens, mas será porque eles têm um enorme prazer em ouvi-las?

“Sabes qual é o verbo que mais te carateriza?”

Confesso que fiquei um bocado surpreendida quando, num final de dia em que estava sentada no sofá de minha casa, em silêncio com o meu marido, ele me dirigiu esta pergunta.

O seu leve sorriso, quase impercetível, devia-me ter deixando a entender que ele “queria conversa” mas lá alinhei no jogo.

“Trabalhar!” – disse eu com grande fé…

“Sim trabalhas muito mas não é esse verbo que mais te carateriza.”

“Pensar?” – lá disse na segunda tentativa.

“Hummm…acho que ainda vais ter de pensar mais um bocado…”

“Inventar?” – Aqui já me estava a meter com ele…

“Bela invenção me saíste!”

Na última já a brincar com a conversa disse-lhe “Olha então deve ser dormir!!”

Era bom era…

E então lá continuou a conversa e disse:

“O verbo que mais te carateriza é conversar! Sempre que vou a algum evento contigo, a um jantar, a uma exposição, estás sempre a conversar com alguém. E não só tu tens muito gosto e prazer em conversar com as pessoas, como elas também parecem gostar de conversar contigo.”

Será que o meu marido me está a dizer de uma forma muito subtil que tem uma esposa tagarela?

“¿Por qué no te callas?” como disse o rei de Espanha. Será?

Estou a brincar consigo, mas de certa forma tenho de concordar com o meu marido. Gosto muito de conversar e até acho que no mundo vertiginoso em que vivemos, e onde muito se fala de comunicação, às vezes até parece que a velha e boa conversa, prazerosa, próxima, tranquila, está a ficar fora de moda.

Eu continuo a usar uma parte do meu tempo para conversar com algumas pessoas que sei que aguardam a minha viagem de regresso a casa para receberem aquelas palavras que não tiveram com quem partilhar ao longo do dia. Isso deixa-me de coração cheio por saber que contribui para o bem-estar e felicidade dessas pessoas. Às vezes sinto pelo tom de voz do lado de lá da linha que a viagem é curta mas no dia seguinte lá estou eu de novo.

Aproveitando o tema da conversa, e como em artigos anteriores já falei de outros tópicos da comunicação, como por exemplo a
empatia e a escuta ativa, hoje vou dedicar-me ao lado mais “humano” da comunicação verbal.

 Isto porque na comunicação interpessoal, quando conversa com outras pessoas, as suas palavras são um poderoso veículo da sua expressão pessoal, personalidade e valores. As suas palavras têm impacto, influenciam as relações pessoais e profissionais e moldam a sua realidade.

Existem palavras boas e outras que nem por isso. Algumas palavras cativam, outras afastam. As palavras certas no momento certo reforçam o sentido de liderança, outras podem criar o caos e o conflito.

As palavras podem gerar na nossa vida alegria e gratificação, ou o seu oposto. Por isso é importante fazer a gestão da comunicação pessoal, tendo em atenção as palavras que se escolhem e a forma como são utilizadas numa conversa.

Pode ser que nem seja muito dado a conversas, seja como for pode ser um bom desafio desenvolver ou aprimorar esta habilidade. Afinal de contas é através das palavras que se transmitem ideias, valores, conhecimentos, sentimentos, atitudes e comportamentos, utilizando as palavras de uma forma cuidada e ponderada, promovendo dessa forma a construção de relações gratificantes e harmoniosas.

Independentemente do estilo, da pronúncia, do sotaque e das particularidades de cada um a linguagem verbal deve ter em consideração algumas qualidades de forma a promover uma interação gratificante, valiosa e produtiva.  

A linguagem verbal deve por isso ser caraterizada pela
transparência (para promover o entendimento), correção (para transmitir elegância e cortesia) e positividade (para gerar um ambiente prazeroso à comunicação).

Vamos ver cada um destes pontos com maior detalhe.


Transparência

A transparência na comunicação verbal deve favorecer um entendimento adequado. Antes de falar é importante que pondere as palavras que vai utilizar para transmitir as suas ideias, os seus pensamentos e sentimentos de forma simples, clara e concisa, questionando-se a si próprio:


- “Eu disse precisamente aquilo que pretendia dizer?”
- “Os outros escutaram de forma clara aquilo que eu disse?”
- “A mensagem que quis transmitir foi bem compreendida pelos outros?”
- “Como tenho a certeza disso?” 

A comunicação verbal está sujeita a muitas interferências que tanto podem ser externas, como por exemplo um ruído ambiente, ou internas, porque muitas vezes as pessoas escutam o som das palavras mas interpretam de acordo com os seus valores, a sua cultura, as suas motivações e experiências, dando um sentido diferente daquilo que se pretendia transmitir.

Uma vez que o ouvinte não vai ler a sua mente, e pode por diversos fatores não entender a mensagem, uma boa estratégia a utilizar é convidá-lo a reformular ou resumir, nas suas palavras, aquilo que escutou, e no caso de a mensagem ainda não ter sido bem entendida deve-se então clarificar os pontos de dúvida.

Por outro lado tenha a atenção de adaptar a sua linguagem à pessoa com quem está a falar, ou seja não é suposto falar com um adulto da mesma forma que fala com uma criança, nem é suposto falar com um cliente exatamente da mesma forma que fala com um colaborador, pois são situações diferentes que supostamente requerem diferentes estratégias para o entendimento. 

Claro que há valores, como o respeito e a educação que não são adaptáveis, devem estar sempre presentes, contudo o seu discurso para ser eficaz deve estar de acordo e alinhado com a idade, o nível educacional, o entendimento e as vivências do seu ouvinte.

Também sugiro não utilizar palavras caras ou bonitas como um adorno, nem abusar de estrangeirismos, é importante sim que trabalhe e desenvolva o seu vocabulário, só tem a ganhar com isso mas a chave de uma comunicação verbal eficaz é a simplicidade. Na minha opinião a linguagem deve ser simples e acessível.


Correção

As palavras não têm simplesmente uma função utilitária de transmissão de informação, funcionam como um cartão-de-visita e dizem muito sobre a sua maneira de ser e pensar. A utilização de uma linguagem correta e cuidada é uma excelente estratégia de comunicação na medida em que passa aos outros uma imagem de cultura, elegância e cortesia que constituem um ponto muito positivo na interação.

Em primeiro lugar pode procurar falar de forma gramaticalmente correta e evitar ao máximo ou de todo expressões “brejeiras”, calão ou outras palavras com um teor ofensivo. Argumente com lógica, com encadeamento mas principalmente com educação e respeito pelas sensibilidades do seu interlocutor.

Em segundo lugar, sempre que estiver num evento social e praticar a designada conversa de ocasião ou small talking, é de bom tom abordar assuntos ligeiros e que sejam normalmente apreciados por todos como por exemplo viagens que fez (obviamente sem se tornar exibicionista), gastronomia, eventos culturais, desporto, temas da atualidade entre outros.

Não se esqueça porém de respeitar os silêncios, não bombardeie o seu interlocutor com conversa, deixe a conversação fluir com naturalidade. E acima de tudo evite temas de conversa tabu em contexto profissional, ou seja perguntar a idade ou o peso, falar da vida íntima, crenças religiosas, questões políticas e outros temas com uma maior sensibilidade, para não intimidar as pessoas com quem está a confraternizar.


Positividade

Como foi dito anteriormente as palavras são poderosas e interferem nas relações pessoais que desenvolvemos. Palavras positivas determinam pensamentos positivos, e as pessoas que escolhem ser positivas no seu discurso contribuem pra criar um ambiente positivo à sua volta.

Por outro lado quando as pessoas escolhem ser negativas no seu discurso normalmente o que estão a fazer é a gerar um clima negativo à sua volta e a condicionar pensamentos negativos no interlocutor, e não é isso que se pretende.

Trabalhamos este tema com muita frequência no contexto profissional, e numa primeira fase as pessoas sentem imensa dificuldade na construção de frases positivas, mas com a aplicação de algumas técnicas a prática começa a surgir e faz toda a diferença.

Por isso para transmitir uma imagem de positividade na comunicação-verbal e promover um ambiente positivo que favorece a comunicação, a partilha e o entendimento mútuo, é fundamental que tenha em atenção alguns aspetos.

Para ser positivo no discurso pode ser positivo nas palavras, portanto procure evitar o uso de palavras negativas e principalmente a palavra “não”: “não sei”, “não é assim”, “está mal”, “mau”, “está errado”, entre outras. Faça uma lista e deixe de as usar.

Dê uma volta ao seu discurso e procure sempre falar num tom que estimule pensamentos positivos. Por exemplo:


* Em vez de dizer “você está errado” pode dizer “esse ponto pode ser melhorado
* Em vez de dizer “problema” pode dizer “desafio
* Em vez de dizer “você tem que” pode dizer “ é necessário que
* Em vez de dizer “não pode fazer assim” pode dizer “tem possibilidade de fazer de forma diferente? 

Estou a conseguir transmitir a importância deste tema? À primeira vista isto pode parecer algo fútil, mas estudos confirmam que a utilização de expressões mais positivas a longo prazo contribuem para um clima harmonioso e inclusive interferem na nossa estrutura mental.

Nunca lhe aconteceu estar a ter um dia mau e encontrar alguém e só por falar com essa pessoa parece que até fica mais bem-disposto? Por outro lado se for uma pessoa positiva mas estiver num ambiente com pessoas que utilizam expressões mais negativas é provável que ao fim de algum tempo esteja com o mesmo tipo de discurso.


Que lhe parecem estas sugestões?

Existem aspetos da sua comunicação-verbal que pretende melhorar?

O que está disposto a começar já hoje?


Espero que estas dicas lhe sejam úteis e se quiser aprofundar este tema comigo não hesite em entrar em contato. Afinal de contas, já sabe que gosto de conversar. :) 
 
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